quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Vicioso.

E as festividades se estenderam pela madrugada.O chão sujo de papel picado e as bolas pelo salão.Como é de se acontecer, a vontade de chorar engolia ela própria.Mesmo os sóbrios viam motivo em se apoiar num suado ombro amigo.
Ela recostou a cabeça no ombro desajeitado, ele desajeitado prendeu a mão na cintura dela.O sol nascendo alaranjado, os passos lerdos adiando um fim não doloroso.Quem procurasse uma palavra doce, ficaria laconico por alguns minutos.Na ausência de algo melhor, olhar pra ponta grudenta do sapato.Um tapinha nas costas e um riso sem jeito já eram bom consolo.
O cansaço e o desejo fez tudo fluir rapido.A pele deslizante na mão macia.A continuidade de sorrisos de olhos fechados.
Cada minuto pedia mais um minuto.
Um xícara rápida de café anunciando a sonolencia nos corpos.Também, tinha sido muita emoção num só gole de vodca.Era hora de ir, e os invictos vinham cambaleantes pela calçada, com a camisa aberta e o bafo de álcool.Vomito e tontura é uma condição opcional, a qual nem todos estão aptos.
Se deitaram, e dessa vez, era por sono.O dia chamava pra sair, mas ali dentro era o melhor lugar.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Little Win.

Ela quer que todos planos dêem certo
Tento ajudar quando estou por perto
E também quando não estou
Na verdade, eu já vou
Mas não vai ser por muito tempo,
Eu prometo

Se as pálpebras pesam, aproveita o sono
Também entendo o cansaço.
sei que não é fácil.
Ninguém falou em desistir,
Eu só acho que se prender medo não é necessário
Se permitir sorrir e sonhar
sem calcular a passagem dos dias.

Confusão pra começar
Reclama da solidão as vezes,
mas já se passaram alguns meses
Ela dorme no mesmo lugar.
Quando acordar, onde quer que esteja
Me beija, eu te amo

Muito

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

As Vítimas.

".....apesar de inconstante, ela é uma boa menina"Ainda lembrava que refletiu quando se decidiu por pedi-la em namoro.
arrumou a garrafa e os remédios na mesa.Catou o controle remoto, recostou-se e deu play no filme.

Apesar de vários motivos contra, Dani aprendeu a se realizar.De fato a separação dos pais no começo da adolescencia foi uma baque forte pra guria.Lembra que baixava o volume da tv pra ouvir o que os pais gritavam no quarto ao lado; voltava aumentar já quase chorando.
A esperança de ir pra Disney nas ferias se rompeu, e antes essa fosse a pior parte.
Vivendo só com a mãe, ouvia todos os dias como era difícil ser mulher num mundo de homens.Aprendeu que devia ser independente.Como colateral, aprendeu a rancorizar e ser dura com toda sorte de rapazes.Tomou horror de acompanhamento pisicológico.
Aos poucos superou.Feliz poder encontrar o pai.Eles passeavam pelo bairro onde agora o ele morava numa casa de aluguel.Dois comodos.Paravam e tomavam sorvete, como uma família feliz devia fazer num domingo a tarde.
Treze anos e já não via graça nos filmes da Disney.Ligava o radio bem alto e botava Stone Temple Pilots ou Alice in Chains.Rodopiava fazendo da escova cabelo de microfone, caia na cama cantando o refrão de Plush junto com o Scott.
No colégio era boa aluna, mas evitava se expor.Mesmo com poucos amigos, eram leais e divertidos.Assim vieram as matanças de aula,o desejo de saborear nicotina e os primeiros toques alheios.Na seletividade que tinha sido empurrada, preferia ser atraída pelos tipos menos comuns.
A mãe chegava do trabalho ela já estava sonolenta.O pai tinha rugas e aparecia cada vez menos.a mãe saia, e acabou achando alguém, julgou.
Foi se permitindo e cresceu como mulher.
O cabelo tingido até nos ombros, a identidade falsa, o senso de responsabilidade.Se pra alguns de estômago fraco, o vomito jorrava no meio fio,ela preferia manter a linha.Sentava na mesa de sinuca numa quinta a noite e numa sexta estava na aula despejando conhecimento sobre a literaturainglesa, sempre sublinhando as consoantes iniciais ao dizer Oscar Wilde.Trabalhava pra ajudar a mãe com as despesas e pra custear sua vidinha.O pai tinha lhe dado uma irmã mais nova.
Os livros da escola, as revistas e o CD do Queens largado na cama.
Se esbarravam na biblioteca, se viam nos corredores.
-Principe Feliz realmente me faz pensar.Eu me sinto tão...incapaz.
Não eram tão novidades um pro outro, só descobriram coisas que não imaginavam.Horas conversando, gostos similares, risos e negativas.
-Claro que os Stones são melhores
-Dorian Gray! Lindo, lindo.
-Não acho o tipo de coisa que se compara, po.É gosto.
-Aquele solo do Hendrix
-As vezes me sinto tão só
-Ficção cientifica
-Paris!
-É.Paris
Abraçados pela rua, ele mal conseguia controlar a felicidade no seu peito.Mas fez.Ficou calado e mesmo no cinema, preferiu olhar as feições dela.A luz batia, descia pelo nariz e fazia os olhos brilharem.Ela virava rindo, apertava o braço dele.
-Você viu isso?
Deslumbrado ele não fez nada. Preferiu bancar o bobo.Foi contando os passos pra casa.
Os relógios envelheciam.Pensou consigo mesmo em suas equações mentais.Decidiu por bem.Talvez fossem o casal mais lindo da cidade, mas ninguém os percebia camuflados no escuro, ainda mais nos dias de chuva.
Resfriados e abraços, cinemas e lanchinhos.Os dois ciumentos, com as magoas mutuamente engolidas.Se davam tão bem que ia ser pra sempre.Aqueles planos de futuro.Ele era sonhador, ela não tinha problemas com as próprias roupas.Apaixonados.
A indústria estava quebrada, e o mercado interno entrou em crise."Decidiram" romper.
Ela ficou triste, ate chorou, mas não prolongou muito.A vida tinha sido incisiva que rapazes vem, rapazes vão.Na mão de um bom entalhador, até pedra de sabão vira escultura.Ele ficou triste, quis se matar. Ouviu vários conselhos, desde "Não deu, não era pra ser" até o "ela era uma puta".Nada adiantava.Nem teorias divinas.Em duas semanas tinha festa da tia.Pais e irmãs iriam. Ele pediu pra ficar.
Apagou quase todas as luzes e foi se preparando.Tinha sido um bom aluno, permanecendo anestesiado pelas constantes brigas dos pais.Gostava de ler e de rock.
Sempre que podia, também curtia filmes cult.
Abriu a capinha e botou seu dvd predileto.Na mesa, uma garrafa de whisky 12 do pai e uma pequena sorte de remédios: Berotec, Aspirinas e um antidepressivo da mãe.
Nos últimos dias, tinha ouvido notas muito pesadas pra baixo, entre Radiohead e Joy Division.
Desligou o filme
Dani era a garota mais interessante que ele já tinha conhecido.Uma mulher, uma menina.Independente, inteligente, proativa, sincera, educada....nos braços dela, ele esquecia de como era motivo de graça quando era do ginásio, esquecia de sua arrogância e prepotência.Sentia-se o cara mais feliz do mundo, e ela nem parecia sentir falta.Estavam conversados, mas não era aceitável.
Se achava pobre, feio, tinha pouco incentivo, pouco reconhecimento.Muitas pressões afunilavam decisões.Valia apena.
"Berotec é em gotas" questionou se como ia misturá-lo no coquetel de overdose.
Pesou em Dani pela ultima vez, foi na cozinha, botou Shadowplay pra tocar.Parou diante dos remédios pela ultima vez.
"Eu também fiz besteira, eu sei.Estraguei uma sensação tão boa, e olha como quero resolver...que idiota.Ninguém tem culpa.Amo porque apesar de inconstante, ela é uma boa menina"
Botou uma dose de whisky, se jogou pra trás.Dormiu no sofá.
Dani tinha medo que as dores mastigadas, um dia a engolissem.
Placebo ou não, doses homeopáticas de felicidade também curam velhas doenças
"no centro da cidade, esperando por você"

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Acender.

Eu sei que meu despreparo
vai transparecer no meu abraço
mas espero que isso não assuste, pois eu
apesar do meu aparente descaso
estou sempre aqui e tudo o que faço
e pra ter satisfação quando posso (ou puder) te ter

Sempre que eu me perco
encontro ou escorro, por ser
pouco e defeituoso, ao meu ver

Saliva em boca alheia
Cortes, bufos, mordidas e arranhões
dores boas, projeções de prazer

Ouça meus passos contra o chão
Sobraria medo em mim, mas
Agora sinto que posso mais
O deslizar das minhas mãos
o sangue pulsando quente
e as lágrimas douradas, só por eu chegar
No teu corpo

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Bebida quente arde a garganta.

Medo costuma ser uma palavra chave.Aversão, prudência.O medo de crescer demais e pisar em alguém, ou o medo de encolher de novo e ficar se esquivando para não ser pisoteado.Arriscar realmente é muito perigoso.Era melhor então manter as pílulas magicas dentro do potinho, na minha mão esquerda.
Uma patinha peluda empurrou uma xícara que girou até mim.A fumaça quente me dizia pra esperar um pouco antes de provar.Antes de algum movimento meu, o homenzinho de chapéu a minha esquerda danou a encher minha bebida de açúcar, até só ficar uma montanha branca onde antes tinha chá.Abraçou a lebre e riram sem parar.Cantarolaram e botaram graxa em algumas torradinhas.Serviram chá para todas as xícaras da mesa, até as que estavam de ponta cabeça.Deitei e larguei meu potinho na mesa.Muita loucura, preferi me abster.

-O que foi irmãozinho? Esquecemos de te dar chá de nozes, ou você está doente? Porque não está feliz?
-As vezes me sinto vazio.Deixo oportunidades passarem, ou machuco pessoas próximas.Tento fazer o certo, mas acabo sempre repreendido.Sou incorrigivelmente infantil e medroso.O otimismo e o fracasso sempre vem pra mim no mesmo prato.Ninguém sente falta de mim por mais de um verão.Sou um descompasso -disse eu meio perdido.
Um silencio.
A lebre e o homem baixinho se entreolharam.
-Acho que ele é doente, amigo
-Acho que aquilo perto dele é o remédio, amigo.
Vieram vorazes na minha direção.Um me apertou a boca, outro me empurrou pra trás, me derrubando no chão.Em um segundo, todas as pílulas foram passando pela minha garganta.Eu ia crescer, encolher, mudar de cor...o que ia ser?Acho que morri

É a ultima coisa que me lembro antes de me acordar sem ar numa noite chuvosa .

sábado, 31 de outubro de 2009

Duplipensar.

Não é verdade.Nunca foi
Isso não voa
Aquilo já está morto, muito antes de nascer.
Tudo o que voce aprendeu é apenas uma visão
Uma a mais

Os didatismos que te ensinam a ser cruel
porque a bondade por si só
é um caldo ralo demais
Guerra é Paz

Passado e futuro não existem
O presente é o importante
Tudo é diluivel
Um ataque surpresa é sempre previsivel
Tudo é mentira
Uma a mais

domingo, 25 de outubro de 2009

Servil.

-Oh, é claro que seria bom.
-Então deixe de conversa! Sente e beba.Sem pressa dessa vez.

Dez minutos depois, e lá estava o Pierrot descendo a rua.

Desde que tinha sido traído por sua Colombina, Pierrot vivia muito mal; comia migalhas e dormia poucas horas. Chorava e, as vezes, acordava abraçado com uma garrafa de vinho azedo. Aos poucos, tomou forças e assim voltou a trabalhar: dois patrões.
Um era um bancário amargurado.Botava licor pros dois e contava suas conquistas incompletas, admirava as cores do Pierrot.Ambos comentavam suas infelicidades e como se manter a balança sentimental favorável.Riam juntos, até que o homem tivarava da pasta apólices e sua caneta de ponta fina.Pierrot ia embora .
O outro era um pintor.Limpava a mão suja de azul e outros tons num paninho velho e recebia o Pierrot com um abraço. Não paravam muito pra conversar.Pierrot era advertido quando ficava olhando o pintor misturar as cores.As vezes paciente, ele largava as tintas e explicava para Pierrot sobre as técnicas academicas de pintura.Quando ia buscar uma garrafa de vinho na adega do pintor, Pierrot já sabia que ele estava sentindo falta de seu amor, Jennie. Esperava ele ficar bêbado.Pierrot ia embora.
Pierrot andava pelas calçadas, parava pra beber.Acordava bêbado.Era a falta da Colombina, era o pai tuberculoso e sobretudo, a incapacidade de servir bem seus patrões que sempre reclamavam dele.Circulo vicioso
Seria muito feio seu corpo espatifado no chão, ou boiando no rio.
Um dia ouviu os sussuros de Colombina num beco.Arlequim com a mão por dentro da roupa da moça, ambos se confrontando. Acumulando raiva e rancor.
Antes de chorar, Pierrot tomou uma decisão.Misturou veneno no seu vinho azedo.
Dormiu, pra sempre.

No dia seguinte ainda não era carnaval.
-Andou bebendo de novo? Vamos, você já está atrasado e temos muito pra fazer (ou por viver)